quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Cinzas


Esquecidas ficam as cinzas
No rescaldo deste inferno
Ardemos inteiros
Sugados por negras labaredas
Inferno sem fim
No âmago de nós

Cegos de Luz

Esgrimimos o destino
Com espadas sujas
Das veias cortadas
Com golpes certeiros
E esperamos vencer
Quando vencidos nos vemos

Salpicadas ficam as cinzas
BF



Imagens de um pescador :):)

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Mentiras

domingo, 8 de Novembro de 2009

A Saudade é um grito de Liberdade...



A Saudade é um Grito de Liberdade….


Hoje. Num percurso de autocarro que não leva mais de 5 minutos. Logo que entrei os vi. O tipo de passageiros sobre os quais aviso a minha filhota para que não se aproxime, etc, etc… do alto do meu preconceito, da minha mesquinhez. Dois homens, de idade difícil de determinar, que em pé, com a postura de direito por viverem no limbo social, dificultavam a passagem a quem queria aproximar-se da saída. As suas vozes eram sonoras, demonstrando a pouca importância que davam aos outros passageiros. Um deles recordava passagens de uma vida, que fora a sua e que agora ficava longe. As memórias vinham à tona. Entre histórias passadas com os avós em Câmara de Lobos, e considerações sobre a sua própria pessoa, chamou-me a atenção a frase que se lhe desprendeu dos lábios:
“… A Saudade é um grito de Liberdade…” “…porque recordar com saudade é o mesmo que voltar a viver, é como se estivesse lá de novo…”

A minha paragem chegou. Saí a pensar. A frase a martelar na minha cabeça. As voltas que a vida dá. Quantos gritos de liberdade nos entoam a mente sempre que passeamos pelos prados da memória, sempre que sentimos saudades!
BF

domingo, 1 de Novembro de 2009

Al Berto /Jorge Palma





tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

al berto
in O medo

sábado, 24 de Outubro de 2009

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.

Uma Janela da Minha Infância...
Esta casa, outrora, no meu tempo de menina, tinha vida…muita vida. Era ocupada por uma menina e um menino que comigo brincavam no ribeirinho de água. Hoje, as pedras que serviram de abrigo familiar, dentro das quais tanto brinquei, apenas sentem o leve pulsar da hera que aos poucos lhes vai revestindo o corpo escondendo de olhares. Para além das vidraças, também da minha memória, o Marquito e a Susaninha sorriem. Saudades. Ciclos que se fecharam.
BF

“…Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é."

Fernando Pessoa

imagem BF

domingo, 4 de Outubro de 2009

Mercedes Sosa




Partiu Hoje ...fica a VOZ

domingo, 13 de Setembro de 2009

Conheço o Sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábio
se o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

(imagem roubada com estilo a um companheiro de viagem)

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Balada de Lisboa



Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta e a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém


Manuel Alegre, in "Babilónia"

domingo, 23 de Agosto de 2009

Momentos


Recuo
Passo ao lado do que sinto
A vida condiciona-me a forma e o querer
Preciso do tempo
Aquele
Que deixei passar sem o querer sentir
Mas esse passou
Já não o consigo recuperar
Hoje
Tento viver novos momentos
Projectados no espelho do passado
Reflexo do sonho que pensava realizar
Sonho
Que se tornou difuso
Nas memórias de tantas horas
De infindável espera
Matei-o
Nas águas turvas em que bebi
Pequenas gotas
Na sofreguidão da secura desta vida
O olhar
Que não consegue captar
O brilho das estrelas
Cintilantes no firmamento
E o coração
Que sente sempre a melancolia
De uma noite de escuridão
Atrás de umas tantas que passaram
E tenho sede
E fome de quer
Agarrar uma nova claridade
Iluminar este viver

BF
Imagem Bigmac - Olhares.com

sábado, 15 de Agosto de 2009

Doze ramos na minha árvore...


(Parabéns filha)

Já plantei a minha árvore.
Ela cresce bela e vistosa.
É a mais bonita da floresta.
Vida…
Semente…
Plantado com a ajuda do vento.
Germinada com amor.
Sorri…
Chora…
Pelos mesmos pequenos nadas,
Pelos quais, um dia, eu também chorei.
Sinto que os seus ramos estão a ficar mais fortes.
Alarga horizontes.
Novas descobertas.
E eu
Tenho medo…
Que um dia a minha árvore
Se possa queimar.
Nas chamas que a vida
Teima em ascender.
Medo que não a possa continuar
A proteger.
Doze ramos…
Hoje está resplandecente a minha árvore
Nos seus doze ramos.


BF