quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Pelos pinhais da minha aldeia

"Os cheiros. O ar que te enche o peito não só pela urgência de vida, o respirar, mas também de orgulho. Ou o nó que te ata a garganta e só desatas quando disfarçadamente limpas o sal dos olhos. Outras vezes são as cores que a natureza pinta nos desalinhados socalcos, arados ou semeados, no ladear dos caminhos. Os caminhos, esses que chamavam de cabras mas que calcorreias nas memórias. E tantas e tantas vezes só o desalinhar das árvores que presas à terra permanecem com a força das raízes que lhes são vida. Que a vida essa também tu a tens presa nas raízes dessa mesma terra."...
BF

Pelos pinhais da minha aldeia, 2018

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Eu pescador me confesso


Eu pescador me confesso
Nas redes que deito ao mar
Nas malhas de arrastar
A vida numa barcaça
Que a onda faz baloiçar
Em terra poiso o olhar
Pois não sei se vou voltar
Ao aconchego do lar

Confesso-me eu pescador
Que nas malhas que trago vazias
Deixei escapar agonias
Numa luta desmedida
A tentar ganhar a vida
Para aqueles que em terra ficam
E que em sentida prece
A Ele e ao mar agradecem

Eu pescador me confesso
Que fazes parte de mim
Salgas-me a pele e a vida
Mesmo que por vezes ferida
Me entrego em tuas marés
Como um eterno amante
Sequioso de um abraço
Volto sempre ao teu regaço.
BF

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

poema para a minha mãe





Hoje queria escrever um poema para a minha mãe…


Mas há sentires que as palavras não dizem,


Angustias que os olhos escondem num disfarçado brilhar,


E saudades que as palavras não gritam…


Porque a ausência é um ecoar constante 


Do teu nome…


Que já não chamo


Mãe!

BF

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Segue o teu destino,






Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Campânulas



Campânulas
Guarda num recanto de ti as flores que encontraste entre as rochas
Para mim
Lugares secretos de secretos olhares
Que a amizade pode ser o símbolo dessa flor amarela
Campânula de sons mudos
Para quem não sabe entender os silêncios de carinhos distantes,
São sempre áridos os solos dos afectos!
E o solo sobre o qual germinamos a nossa amizade vai florindo em cada amanhecer
Devagar
Ano após ano
Nas distâncias presentes
Nos Silêncios e nas palavras
No seu tempo
Nas campânulas amarelas
E eu gosto de flores amarelas
Guarda-as para mim em ti!
BF

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Prisioneiro


O PRISIONEIRO

Eu cerrei brandamente a janela sobre a noite quieta
E fiquei sozinho e parado, longe de tudo.
Nenhuma percepção — talvez uma leve sensação de frio no vento
E uma vaga visão de objetos boiando no vácuo dos olhos.
Nenhum movimento — distâncias infinitas em todas as coisas
No lençol branco que era outrora o grande esquecimento
No poeta que ontem era o refúgio e a lágrima
E no misericordioso olhar de luz que sempre fora o supremo apelo.
Nenhum caminho — nem a possibilidade de um gesto desalentado
Na angústia de não ferir o desespero do espaço imóvel.

Passariam as horas e nas horas o auge de cada instante de sofrimento
Passariam as horas até a hora de voltar para o amor das almas
E seguir com elas até a próxima noite.
Nenhum movimento — é preciso não despertar o sono dos que velam em espírito
É preciso esquecer que há poesia a ser colhida nas longas estradas.
Nenhum pensamento — a mobilidade será o horror de todas as noites
É preciso ser feliz na imobilidade.

Vinicius de Moraes, 1935

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Ninguém



Quem és tu? 
- Ninguém.
E Ninguém percorre a cidade, acende o cigarro e lê o Jornal que Alguém por desleixo deixou num banco da cidade. Ninguém sente o sol na pele, quer seja verão ou inverno, na mesma soleira da porta que nunca para si se abre. Mas às vezes aquela porta abre-se e veste-se de festa. Passa Alguém atrás de Alguém engalano de olhar altivo que não vê Ninguém. Este foi por horas escorraçado para a soleira da porta ao lado. Alguém não viu Ninguém, mas Ninguém viu e vê tudo o que lhe passa da cidade em si. Os cheiros, as gentes e a liberdade de escolher a soleira da porta onde apanha sol. 
E tu quem és? 
Alguém?!
BF



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mãe


Todos os dias são de ausência. Sentida. As memórias das pedras da casa e o aconchego da lareira. Revolvias a sopa dentro da panela de ferro com a colher de pau que também servia para castigar. O olhar triste pela batalha diária de por comida na mesa mas, também, o sorriso. Lembro-me sempre do teu sorriso. Muitas das vezes um tanto matreiro. Olhavas-me e sorrias com os olhos e um leve gesto de lábios sem precisares de falar pois eu percebia do que tu sorrias. Quando a tua neta nasceu disseste umas palavras sábias " se passares com ela um terço do que passei contigo já estás bem arranjada". Passaste muito comigo. Desculpa. Era rebelde, refilona nos meus impulsos de criança. Na verdade só uma mãe que ama consegue passar pelo que tu passaste. Somos sete e estamos todos cá. Cada um com as suas lembranças e momentos vividos mas todos nós sentimos o teu amor, diferente pelo tempo e pelas circunstâncias, mas amor! Hoje é só mais um dia de ausência igual a todos os outros que passam sem ti. A diferença está só na data do calendário que assinala a tua partida.
 Estás sempre presente nas memórias.
BF

Foto de minha autoria

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017



Porque cada dia é uma passagem, e a festa deveria ser feita interiormente por cada um de nós, e não só exteriorizar para que os outros vejam o que na maior parte das vezes não sentimos.
Procurem, renovem, arrisquem!
Façam a mudança acontecer sem calendário ou hora marcada. 
A vida acontece mesmo sem relógio no pulso! 
BF



Foto de minha autoria 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Difusas


Difusas
No fuso do tempo em passagens sombrias.
A roca, que lhes tece a meada da vida, embaraçou-lhes os fios do destino.
Este é o novelo que continuam a ter de enrolar!
De fuso partido....
Difuso!
BF


Foto de minha autoria 

domingo, 27 de novembro de 2016

Passagens da natureza


Foi por certo a mais bela rosa daquele pé de roseira. Enquanto botão ansiava desabrochar para a todos inebriar com o seu cheiro e beleza. Uma curta passagem de deslumbramento. Suas pétalas envelheceram, enrugaram. Agora, olha os outros botões a desabrochar com a sabedoria da sua passagem pelo roseiral das ilusões. Só lhe resta deixar cair ao chão as suas pétalas velhas. Talvez, entre as muitas pisadelas de passos apressados, alguém recolha uma das pétalas e a guarde entre as folhas do livro preferido. Assim continuará a ser admirada sempre que este for desfolhado.
BF




Fotos de minha autoria 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

É isto o amor


É Isto o Amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, queme esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste amanhã da minha noite. É verdade que te podiadizer: «Como é mais fácil deixar que as coisasnão mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmosapenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-mea sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,até sermos um apenas no amor que nos une,contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tuavoz que abre as fontes de todos os rios, mesmoesse que mal corria quando por ele passámos,subindo a margem em que descobri o sentidode irmos contra o tempo, para ganhar o tempoque o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,de chegar antes de ti para te ver chegar: coma surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de águafresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:a primavera luminosa da minha expectativa,a mais certa certeza de que gosto de ti, comogostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


 Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'

Foto de minha autoria 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A beleza


Primeiro são as cores e só as cores
que te prendem o olhar.
Depois vem o cheiro…
Nasce da terra como simples erva,
abre-se aos olhos do mundo
e morre !
No mesmo pé, que lhe sustenta
a beleza, cai na leveza de um sopro…
O ciclo de todos os seres.
Num ilusório perene….
leve
frágil

breve!

BF 

(foto e palavras de minha autoria) 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Caminhos entrelaçados



Vergas nos dias
nas passadas cruzadas
por caminhos entrelaçados
que os passos sabem de cor
e esperas as horas...
para o regresso cansado
pelos mesmos caminhos
cruzados...
em que entrelaças...passadas!

BF

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sentires ao sabor do vento



Não me falem de temporais ou do vento que vos dificulta o caminhar pois, o vento, sou eu que o sinto no acariciar das minhas folhas. E quando elas caiem, remoinhando ao seu sabor, são pedaços de mim que se afastam para sempre.

BF


Foto da minha autoria

sexta-feira, 4 de março de 2016

Desde que te conheço



Desde que Te Conheço
Invade-me uma grande calma quando penso em ti. Sinto-me bem, disposto para as mais difíceis tarefas, para os mais complicados e demorados trabalhos.Já não é na turbulência das noites (vividas na pressa) que encontro a vontade de escrever. As noites cansaram-me, ia acabando comigo de vez na desordem e na ânsia de viver. Claro que continuo a sair à noite e a amar esse espaço fantástico que é a cidade. Esta cidade que amo, mas tu estás nela também. a cidade mudou desde o instante em que nela entraste. Já não percorro a noite numa angústia que se esquece e anula na bebedeira, ao nascer do dia. Desde que te conheço tenho levado uma vida bastante regrada. Deixei de beber. deixei de andar por aí a ver se alguém me pega ou se eu pego em alguém. Acabou. Tenho-te e sinto uma felicidade estranha a dominar-me. Trabalho calmamente, com vagar, e avanço sem ser aos tropeções. Leio e releio o que escrevo. Tudo se torna, de texto em texto, mais preciso, mais próximo do que penso. Escrevo somente (como de resto sempre fiz) o que me dá gozo e ao mesmo tempo me perturba. Por isso odeio tanto reler-me. Sinto-me perturbado. O que ficou escrito foge-me, parece já não me pertencer. No entanto, sei que estou ali, por trás de cada texto escrito. Sinto que são ainda parte integrante de mim - raramente me consigo desligar (friamente) do que escrevi, mesmo que o tempo tenha tentado apagar as motivações que me levaram, na altura, a escrever o que ficou escrito.

Al Berto, in "Diários (26 Abril 1991)"

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Palmas



Por vezes há que bater palmas ainda que o verdadeiro espectáculo esteja a acontecer fora do palco!
BF 

sábado, 23 de janeiro de 2016

Pérolas da natureza


Lágrimas da natureza neste meu deambular....

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Ruína


Há muito tempo que as portas se fecharam ….
mas por detrás das vidraças continuam as cortinas dependuradas no tempo
……pode sempre entrar uma réstia de luz!
Lá dentro a mesa está arrumada com as cadeiras no devido lugar. Espera que lhe caia a toalha e os pratos em cima. Sente os pontapés da criançada nas suas pernas, nos momentos em que se sentia cheia, sem espaço ao seu redor.
Afinal não foi o prato que lhe caiu em cima. Foi a primeira das muitas telhas que aos poucos se desprendem do telhado.
A ruína anunciada. A chave nunca mais deu a volta à fechadura.
A seguir ao telhado cai o estoque. A parede desmorona e a cadeira não será mais que pedaços de tábuas no chão…..
das muitas horas que foi aconchego.
BF

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

As flores também choram


E falavas na orvalhada que fica nas flores numa manhã fria e solarenga. Se as pétalas choram? não sei. Mas sei que o mar do olhar também transborda como qualquer maré cheia, de sentir. Depois, um poeta do nosso tempo diz que "as lágrimas são o mel dos olhos" e eu acrescento que será para quem o não souber colher. Talvez com um beijo. Será que as flores choram?

BF